
Eu sei que, mais uma vez, devia estar calado. Que o que vou dizer nas próximas linhas não importa. Não importa porque não tem nada a ver com o caminho que escolhi, porque é o reflexo persistente do Zé Rui de que me estou a tentar libertar. Mas, como não estamos todos na mesma página do ‘currículo universal’, acredito que isto ainda possa servir a alguém.
Todos nós enchemos a boca com a democracia. Churchill tinha razão quando disse que é a pior forma de governo excepto todas as outras. Objectivamente, não se inventou melhor. Mas, numa era em que tudo foi democratizado, o ignorante vota ao lado do esclarecido e as suas opiniões têm peso equivalente, as maiores nódoas tanto em carácter como em competência profissional chegam ao poder com a mesma pompa que alguém digno de tal, os debutantes escrevem livros como se tivessem algo para ensinar e claro que não é de estranhar que o conhecimento esotérico se tenha transformado em exotérico.
Todas as portas estão escancaradas a troco de dinheiro, rentabilidade, boa imagem, isto é, ou se compra ou se é vendível. Há por aí uns livros, alguns, não sei ao certo quantos, que foram escritos por alguém que actualmente é apresentador de televisão. Há muito pouco tempo era actor numa comédia e aparecia com pouca roupa. Há mais algum era dançarino. Não digo que não seja possível ter-se um grande abrir de horizontes de um momento para o outro, mas ganhar mestria suficiente para se escrever uma série de livros, é pá, disso duvido. Duvido porque ainda estou a pensar nos termos de meados do século passado. Para mim um livro é uma coisa quase sagrada, que se chega a ser publicada deveria ter qualidade comprovada, gerar algum tipo de consenso entre muita gente de que assim é. Hoje isto não é verdade. E tal não se aplica apenas ao nosso mercado nacional, de fora vêm coisas tão ou mais duvidosas que as que nós próprios produzimos. Só que como lá fora têm nome (vendas e muitas), cá são introduzidos logo em destaque e muitas vezes miseravelmente traduzidos, o que ainda consegue melhorar a obra.
Em relação ao conhecimento esotérico, começo a duvidar que isso ainda exista. O Reiki, se começou por ser um conhecimento esotérico por ser, exactamente, partilhado em círculos restritos, hoje não o é de maneira nenhuma. E aqui está o cerne da minha crítica. Quantas pessoas começam numa ponta, chamemos-lhe primeiro grau, e vão por aí acima só acabando dos graus do Karuna, se é que há um final nessa escalada? Será possível que qualquer pessoa, e sublinho, qualquer pessoa, tenha perfil para mestre Reiki, já para não mencionar os graus que se lhe poderão seguir? Aparentemente sim. E porquê? Não é por o Reiki ser por natureza universal (isso é a energia), é porque os ditos ‘mestres’ sabem que se se recusarem a iniciar tal indivíduo em tal seminário irão não só perder um cliente para a concorrência como irão abrir um precedente que poderá lançar a fama errada nos círculos das espiritualidades e revelar-se uma autêntica caixa de pandora.
Nunca ouvi falar de um mestre recusar ministrar um grau Reiki a quem quer que fosse, o que por si só me parece grave. O máximo a que assisti foi atrasarem ligeiramente a ocasião, sob o pretexto de dar tempo para que a pessoa se preparasse. Ouvi da boca de um mestre um certo comentário de desaprovação do perfil de um dos seus iniciados que curiosamente de si tinham obtido o grau de ‘mestre’. Faz sentido? É lógico que não.
Se o Reiki de terceiro grau, o grau de mestre que permite que essa pessoa passe ela mesma os conhecimentos que aprendeu, pode ser dado a qualquer um ou uma, então só há uma conclusão óbvia: o Reiki é uma batata. O Reiki hoje não vale nada porque há por aí um monte de gente que sabe muito pouco e que enche a boca com a palavra ‘mestre’ como se dela fossem dignos/as! O resultado são reikianos cada vez mais mal preparados. A mestria, meus caros, não é obtida instantaneamente por definição. A mestria é para quem percorreu um longo caminho de aperfeiçoamento e de libertação do ego. Poderá não ter chegado ao termo, mas meteu pés ao caminho e consegue ver o topo da montanha. Não foi certamente alguém que por ter pago umas centenas de euros e ter prescindido de três fins de semana ficou iluminado, qual candeeiro místico que se acenda em interruptor!
Fica então o aviso: olhos bem abertos quando forem enveredar pelos caminhos do Reiki e de outras terapias associadas à espiritualidade. Antes, informem-se bem sobre o que é o Reiki. Comprar um livro sobre o assunto não é mal pensado. Sondem o território o máximo possível antes de se comprometerem em participar em qualquer seminário. Experimentem uma terapia com o/a dito/a mestre. Procurem pessoas que por ele/a tenham sido iniciadas, sobretudo as que têm termo de comparação (as das ‘reciclagens’). É bom dar também uma olhadela à linhagem de mestres de onde provém o/a mestre em questão. Se tudo bater certo, as referências forem as melhores e finalmente, mas não menos importante, tenham sentido ao estar com ele/a que o devem fazer, então força.
E se se tiverem fartado das ideias dualistas da New Age mainstream, vão directos para um velho clássico intemporal como é o Curso em Milagres. E se se ficarem por aí, vão ficar muito bem. ; )
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